terça-feira, 15 de maio de 2012

Roger Hodgson - Hai Hai (1987)

               
 
                Enquanto músico, Roger Hodgson acumulou além de diversos hits e êxitos uma carga de faixas que caminham por um ecletismo de temas. Enquanto co-fundador do Supertramp, foram algumas músicas sobre críticas ao establishment como "Logical Song" e "Hide In Your Shell", sobre o amor e as separações, como "Even In The Quietest Moments" e "Don't Leave Me Now" e a culpa ou fragilidade do ser humano, na belíssima "Lord Is It Mine". Desde seu desligamento do grupo, ainda na primeira parte dos anos 80, aplicou imediatamente seu talento e inspirações no debut "In The Eye Of The Storm", que alcançou destaque no Canadá com um álbum de platina, a quadragésima oitava posição na Bilboard Hot 100 e emplacando dois sucessos (ou faixas que continuariam em seu setlist) em "Lovers In The Wind" e "In Jeopardy". A partir desses dois momentos distintos de sua carreira e procurando aproveitar a mudança de sonoridade, Roger Hodgson prepara o seu segundo lançamento solo.
                Assim como o trabalho anterior, Hai Hai seria produzido por Hodgson, mas dessa vez em parceria do estreante Jack Joseph. A sonoridade, como de se esperar de um trabalho efetuado na segunda metade dos anos 80, é bastante carregada de sintetizadores e de algumas faixas com bateria eletrônica, o que se difere bastante dos projetos anteriores. Entre o longo staff dos músicos convidados para a produção estão o baterista do Toto Jeff Porcaro, os baixistas Nathan East e Leland Sklar e o percussionista sul-africano e radicado em Los Angeles Lenny Castro, que trabalhou dentro de longa lista, com Christopher Cross, Barry Gibb e o próprio Toto. Nesse lançamento, Roger mostra-se um grande instrumentista, ao tocar além das teclas, a guitarra, violão e baixo. Destaques especiais a serem feitos são para o talentosíssimo baterista Joseph Pomfret, que havia passado anos antes por uma grande banda do rock internacional e uma música que conta com um traço de composição engavetada do Supertramp com a rubrica Davies-Hodgson. A partir das premissas, Hai Hai foi gravado com o intuito de novas experiências para Hodgson, como em alguns momentos a sonoridade chegando perto do AOR.
                É experimentando o Adult Oriented Rock que as duas primeiras faixas do álbum ocorrem, a primeira, "The Right Place" em menor intensidade e com sintetizadores de protagonista e "My Magazine", com uma linha de guitarra do próprio Hodgson de dar inveja a qualquer grande instrumentista do gênero. A bateria de marcação de tempo e os vocais rasgados marcam a primeira surpresa dessa jornada. "London" lembra as músicas populares indianas e do leste europeu e é carregada de efeitos sintetizados, principalmente do Dx7 Seetar Solo magistralmente tocados por Mikail Graham, destaques também para o saxofonista Larry Willians e para a primeira participação de Jeff Porcaro. Enquanto "You Make Me Love You" e "Who's Afraid" soam bastante previsíveis, Hai Hai dá novamente ao trabalho a sonoridade AOR, com direito a gaita de Allardyce e à bateria eletrônica da trinca Roger, Albertine e Albhy Galuten (conhecido produtor da fase de ouro dos Gibbs). Lembrando a sua sonoridade anterior, temos "Desert Love", que é bem acompanhada por violão de 12 cordas e baixo, ambos tocados por Roger. "Land Ho" pode parecer repaginada aos anos 80, mas é fruto na essência do Supertramp, assinada também por Davies. A faixa, engavetada desde 1974 ganharia uma primeira vida em um trabalho igualmente não lançado de Roger já na carreira solo. A terceira tentativa surtiu efeito e mostrou um “revival” do grupo e um momento bastante agradável no álbum, e os destaques estão nos saxofones altamente participativos (como nos velhos tempos) de Marc Russo, na linha de baixo do músico de sessão Leland Sklar, na percussão de De Castro além da quinta e última participação de Joseph Pomfret nas baquetas. "House of Corner" é um daqueles intervalos entre as faixas, com pouco destaque e um modelo surrado de AOR (adult oriented rock) oitentista, lembrando um pouco as teclas de uma das fases do Van Halen e tendo destaque as participações sempre afinadas de Hodgson e Anni McCann nos vocais de apoio. "Puppet Dance", a faixa a fechar o álbum, é a terceira grande surpresa do trabalho: em uma letra que trata da solidão no final de um relacionamento (Everything Changes Now you're Gone/Making Me Wonder How To Carry On), o músico apresenta-se ainda mais inspirado em uma faixa que mescla muito do espírito Supertramp com seu início solo, com vocais em falsete nos refrãos. Destaques nas teclas executadas conjuntamente com Rhett Lawrence (que também assina a bateria eletrônica), para o excelente Nathan East, sendo essa realmente o grande gol do trabalho. De uma quantidade alta de músicos de sessão tocando, é interessante citar que Pomfret é na verdade o próprio Roger assumindo um pseudônimo (que na verdade são seu segundo e terceiro nome), ficando registrado mais ainda sua multifacetada capacidade também como instrumentista.
                Lançado em 1987, infelizmente o artista sofre um acidente doméstico que causou lesões no pulso, praticamente mortais para um tecladista, fato que o impossibilitou de divulgar ainda mais o lançamento. Os legados que esta obra irregular deixa, são só dois momentos que derivam para o carro-chefe da obra: Enquanto "My Magazine" surpreende pela naturalidade da adaptação ao AOR e "Land Ho" se torna um “revival” dos tempos de ouro do Supertramp, sendo essa terceira tentativa, articulada durante os treze anos de maturidade musical de Roger. Ambos os momentos, díspares, afluem para a última música do álbum, que é sem dúvida uma vertente daquilo que fez na curta carreira solo de até então. "Hai Hai" alcançaria a posição de número 163 na Billboard 200 e levaria a oitentista-comercial "You Make Me Love You" à trigésima oitava posição do chart "Mainstream Rock", um sucesso inferior nesses parâmetros aos trabalhos da banda que saíra (Free As A Bird - #101 na Billboard 200). As lições que ficam evidenciam a validade dos experimentos (nítido por exemplo em "London") enquanto processo de amadurecimento musical. Hodgson não emplacou um "Hai Hai" precipitado e muito pouco coeso, mas blindou-se junto a sua recuperação física dos eventuais reveses da carreira.

  • Avaliação:



  • Ficha Técnica: 

Gravadora:
A&M
Lançamento:
1987
Gênero:
AOR e Pop


  • Faixas:

A1)The Right Place Compositor: Roger Hodgson                  4:05
A2)My Magazine Compositor: Roger Hodgson                  4:39
A3)Londo Compositor: Roger Hodgson                  4:11
A4)You Make Me Love You Compositor: Roger Hodgson                  5:08
A5)Hai Hai        Compositor: Roger Hodgson                  5:28
B1)Who's Afraid ?   Compositor: Roger Hodgson                  4:57
B2)Desert Love            Compositor: Roger Hodgson                  5:26
B3)Land Ho            Compositores: Rick Davies e Roger Hodgson  4:06
B4)House On The Corner Compositor: Roger Hodgson                  5:21
B5)Puppet Dance           Compositor: Roger Hodgson                  5:16

  • Créditos:

Vocais:  Roger Hodgson
Vocais de Apoio:Anni McCann(1,3,4,5,8,9,10), Brad Lang(2), Clair Diament(3), Ken Allardyce(3,8) Roger Hodgson(1,3,4,5,8,9,10) e Willie Hines(2)
Baixo:Leland Sklar(8), Nathan East(3,6,9,10) e Roger Hodgson(7)
Guitarra:Dan Huff(1,3,5,10), Ken Allardyce(3) e Roger Hodgson(1,2,4,5,8,10)
Violão de 12 cordas:Roger Hodgson(7)
Bateria: Omar Hakim(1), Jeff Porcaro(2,3,4,5,9), Carlos Vega(2,3) e Roger Hodgson(como Joseph Pomfret)(1,4,6,7,8)
Bateria Eletrônica: Albertine/Albhy Galuten/Roger Hodgson(5) e Rhett Lawrence(10)
Teclado:  Ken Allardyce(3,4,5,9) e Roger Hodgson(3,4,7,8,9)
Piano:  Roger Hodgson(6)   
Órgão:David Paich(2)
Synth Bass: David Paich(2), Robbie Buchanan(5) e Roger Hodgson(1,4)
Synth Brass:  David Paich(2)
Synth Seetar: Mikail Graham(3)
Sintetizadores: Rhett Lawrence(10), Robbie Buchanan(1,6) e Roger Hodgson(1,6,10)
Percussão: Jeff Porcaro(4), Lenny Castro(1,2,3,4,5,6,8,9,10) e Roger Hodgson(como Joseph Pomfret)(4)
Gaita:     Ken Allardyce(1,5)
Saxofone: Larry Williams(3,7) e Marc Russo(8)
Engenheiro: Jack Joseph, Bart Stevens, Dan Garcia, Julie Last, Steve Ford e Wade Jaynes
Produção: Jack Joseph e Roger Hodgson


  • Gravado nos estúdios Unicorn Studio, em Nevada e Bill Schnee's Studio em North Hollywood, Estados Unidos, 1987

  • Vídeos

Puppet Dance


You Make Me Love You


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sábado, 31 de março de 2012

Som Imaginário - A Matança do Porco (1973)




                A psicodélica e efervescência que ocorria no Brasil alguns anos após o golpe militar daquele último dia de março de 1964 vinha colhendo bons frutos a caráter de qualidade musical. Um dos músicos tupiniquins a fazer todo esse estudo do que ocorria fora das nossas fronteiras foi Ronnie Von, com um álbum homônimo que resgatou muito do som da invasão britânica. Já nessa época, esse tipo de som era visto como uma afronta tanto ao regime como a música popular brasileira que estava estabelecida. É numa dessas bandas que surge o Som Imaginário, que na sua formação do primeiro lançamento contava com Zé Rodrix, Robertinho Silva, Frederiko, Luiz Alves, Tavito e Wagner Tiso. O lançamento, recheado da musicalidade ácida era camuflado pelas habilidades "jazzísticas" que tinham metade de seus integrantes, Tiso, Alves e Silva, que traziam consigo um universo de sonoridades que fariam dessa banda muito mais do que uma banda psicodélica. Os primeiros anos do artigo quinto passaram, e com eles a saída de Rodrix do grupo (formando trio com os colegas Sá e Guarabyra), além de um lançamento, dessa vez bem mais ácido e pesado que o anterior, justificando à batuta que agora Fredera regia o grupo. Como prova dessa habilidade quase camaleoa dos músicos, "A Matança do Porco" representaria mais um capítulo na história dessa banda, que de mera acompanhante das turnês de artistas como Milton Nascimento e Marcos Valle, viria a ser, por um curto espaço de tempo, dona de sua própria fama.
                A ordem dos lançamentos anteriores do grupo auxilia na explicação das decisões tomadas nesse singular lançamento. Enquanto "Som Imaginário" e "Som Imaginário - Nova Estrela" estiveram regidos por Rodrix (assinando faixas, tocando flauta, nos vocais e nas teclas) e por Frederyko (nas guitarras distorcidas, vocais e nas composições), dessa vez o trabalho todo ficou por conta não de dois músicos de formação em rock e que já não estavam mais na formação da banda, mas sim por Tiso, que era um jazzista convicto. A ordem dos acontecimentos o permitiu assinar as faixas além de arranjar todas as melodias daquele que seria até segunda ordem, o único álbum sem a psicodelia, presente muito fortemente em momentos anteriores. Uma ressalva interessante é que os músicos de sessão tiveram papel fundamental na sonoridade, a exemplos de Danilo Caymmi, os guitarristas Chiquito e Frederyko, a percussão de Chico Batera, e as conduções de Gaya e Verocai com auxílio da orquestra da gravadora, a Odeon. A produção seria ainda marcada pelo trabalho do competente Milton Miranda.
                Trabalhado em sobressalto às teclas e os arranjos de guitarra dos três guitarristas envolvidos, o álbum premia o ouvinte com nove faixas que caminham muito por dentro da sonoridade do jazz, do progressivo e da música regional. De forma geral, é talhado em cima do instrumental, que como obra máxima possui "A Matança do Porco" (e sua incrível capacidade de passar diversos sentimentos ao ouvinte, como o padecimento e a angústia). Com mais de onze minutos de duração e dividida basicamente em um primeiro momento (até os sete minutos) carregados de um rock progressivo mais pesado, com uma espetacular linha de guitarra de Fredera seguido por uma parte altamente sinfônica (sob a batuta de Gaya, em uma de suas duas participações) e com os arranjos vocais de Milton Nascimento e do quarteto vocálico Golden Boys, sequência que se mantém até o final da faixa. Uma boa junção entre Tiso e o som mais antigo do grupo é a sequência "Armina", que caminha mais pelo jazz, e que conta em momentos oportunos, com a presença do fuzz da guitarra de Frederyko, já como músico de sessão e em uma de suas três participações na obra. Ainda em relação a esse tema, foram adicionadas ao álbum três vinhetas sob a batuta de Arthur Verocai, a primeira com um arranjo de sopro e basicamente sinfônica, a segunda, bastante jazzística e com um Tiso bastante inspirado e a terceira estritamente sinfônica, com os metais e o violino bastante presentes, contando com 0:45, 0:33 e 0:40, respectivamente. Partindo para um jazz fusion com bastante brasilidade temos "A3", que é a faixa que explora melhor o conjunto: Alves no contrabaixo, Silva nas baquetas, Tavito e Chiquito nas guitarras e Tiso nas teclas, e é por esta linha que o grupo sai do local comum na música comercializada, não bastaria apenas utilizar uma tendência do momento, mas deveria-se quebrar barreiras utilizando muito da nossa música tradicional. É nessa tônica que a oitava música do álbum, "Mar Azul" é trabalhada, sobre a regionalidade e com a especialíssima participação de Danilo Caymmi na flauta, que gera uma riqueza ainda maior a música. A boa-divergência (que enriquece a obra) pode ser finalmente reduzida em duas faixas: a progressiva e lisérgica "A nº2", (que possui em sua raiz um shape do samba) com nova presença de Frederyko (contando com sintetizadores e uma sequência de cozinha muito boa para o final da faixa) e o "Bolero" de Wagner, liderados por seus riffs de teclas e o contrabaixo de Alves, além de nova participação de Caymmi.
                Finalizado em 1973, esse marcaria o último registro em estúdio do Som Imaginário. A inovadora obra que acabara de ser lançada, logo receberia o reconhecimento do público específico para estar no hall dos melhores álbuns progressivos das Américas, uma grande marca principalmente por se tratar de uma época em que o gênero era profundamente difundido e inovado pelo continente. Os feitos dessa reduzida formação do Som Imaginário marcaram não só uma nova fase na carreira dos músicos (de forma individual), mas um marco para o rock nacional, que alcançava outro patamar a critério de universo musical. A última obra desta banda ratificaria uma capacidade ímpar e não mais vista desde então em manusear as diversas musicalidades, além de uma discografia dignamente intocável no rock brasileiro.


  • Avaliação:




  • Ficha Técnica:

Gravadora: Odeon
Lançamento:1973
Gênero:Jazz, Rock Progressivo e Regional
  • Faixas:
A1) ArminaCompositor: Wagner Tiso5:46
A2) A3Compositor: Wagner Tiso3:11
A3) 1ªVinheta ArminaCompositor: Wagner Tiso0:45
A4) A nº2Compositor: Wagner Tiso6:41
B1) A Matança do PorcoCompositor: Wagner Tiso11:08
B2) 2ªVinheta ArminaCompositor: Wagner Tiso0:33
B3) BoleroCompositores: Luiz Alves, Milton Nascimento, Robertinho Silva, Tavito e Wagner Tiso3:13
B4) Mar Azul Compositores: Luiz Alves e Wagner3:30
B5) 3ªVinheta ArminaCompositor: Wagner Tiso0:40

 
  • Créditos:
Vocais:Golden Boys e Milton Nascimento(5)
Baixo:Luiz Alves
Violão de 12 cordas:Tavito
Guitarra:Chiquito (2,4,7) e Frederyko(1,3,4,5)
Bateria:Robertinho Silva
Percussão:                                    Chico Batera(2,4,5)
Piano:Wagner Tiso(1,5,7)
Piano Elétrico:Wagner Tiso(1,2,4,7,8)
Órgão:Wagner Tiso(1,2,4,5,8)
Flauta:Danilo Caymmi(2,7,8)
Orquestra:Odeon(3,4,5,6,9)
Condutor:Arthur Verocai(3,6,9) e Gaya(4,5)
Arranjos:Wagner Tiso
Produtor:Milton Miranda

  • Gravado nos Estúdios Odeon GB, Rio de Janeiro, Brasil, 1973

  • Vídeos:

Armina

Mar Azul



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sábado, 18 de fevereiro de 2012

Joe Cocker - I Can Stand A Little Rain (1974)




                As influências da música negra dos anos cinquenta e sessenta seriam decisivas na carreira de um dos milhares de jovens da Inglaterra que tocavam o skiffle em bares e pubs da sua Sheffield. John Robert, que viraria Joe e tempos depois assumiria o nome artístico de Vance Arnold (vindo do personagem de Presley em "Jailhouse Rock" Vince Everett e do cantor country Eddy Arnold) não ficou conhecido pelos amantes de música por nenhum desses nomes. O que marcaria mesmo seria Joe Cocker, preservando o apelido de longa data junto ao nome da família. Em 1963, com a "Vance Arnold and the Avengers", banda de skiffle que tocava basicamente covers de Ray Charles (uma das principais influências de Joe) e Chucky Berry, conseguiu sua primeira façanha ao acompanhar a turnê dos Stones que passavam por Sheffield. Desde o primeiro instante de sua carreira profissional - após assinar com a Decca em 64 - (com o cover de "I'll Cry Instead", que contou com o guitarrista à época de sessão, Jimmy Page), Cocker interpretou diversos sucessos do Fab Four, com destaques para "She Came Through The Bathroom Window" do debut "Joe Cocker!" e "With a Little Help From My Friends", que viria a se tornar uma das melhores interpretações do músico, especialmente no Festival de Woodstock, que também interpretou as músicas "Feelin' Alright" da Traffic (que na versão de seu debut conta com a percussão do brasileiro Laudir de Oliveira) e aquela que traduziu o espírito do evento, "Let's Go Get Stoned", de Ray Charles (juntamente com sua segunda banda relevante, a The Grease Band). O sucesso do início dos anos 70 veio com shows da "Mad Dogs" e "The Englishmen", porém tempos depois, Cocker se viu em um crescente problema com o alcoolismo e a heroína (essa que ele conseguiu se livrar no mesmo ano), e é dessa atmosfera que se começa o processo de criação de "I Can Stand A Little Rain", ainda no final de 1973. 
                Como se nota desde o início de sua carreira, Cocker está incluso na primeira leva de músicos dos anos 50 e 60 que na maioria das vezes apenas se encarregaram de interpretar, e não compor suas faixas. Vindo do lançamento de "Joe Cocker", de 1972, onde assinou várias faixas com o colega de longa data Chris Stainton, nesse novo trabalho além da reformulação dos musicos e da produção, já que Jim Price realiza seu primeiro trabalho com Cocker, Joe voltaria à velha forma e apenas assinaria uma faixa. De mantido dos trabalhos anteriores estão a gravadora A&M, que foi responsável por todos os lançamentos da carreira solo do cantor. Na capa de "I Can Stand  A Little Rain", nota-se a feição de um Cocker mais abatido e desiludido, mostrando uma maturidade que confirmaria-se igualmente musical. A nível das composições, o álbum é bastante democrático dentro do corpo de músicos que o acompanhou, tendo  apenas três de compositores que não participaram, sendo o duo Preston/Wilson, de Allen Toussaint e Harry Nilson (o mesmo que regravou "Without You", do Badfinger). É interessante notar que a produção ocorreu quase em paralelo com a do trabalho seguinte, que seria lançado apenas no ano de 1975.
                Em si, o álbum é permeado faixas que circulam dentro da sonoridade pop rock com momentos que lembram a música negra, em especial o gospel e o soul, além do uso das teclas (sob a forma de piano, teclado ou mesmo o órgão) que tomam grande contribuição nas faixas. As letras, de maneira geral, falam da tristeza, das não realizações (como o hit), moldando-se facilmente ao arranjo. A primeira, a animada "Put Out The Light" (composta pelo mesmo Daniel Moore que compôs "Shambala" que ficou conhecida com o Three Dog Night), possui um conjunto de metais afinado e também conta com os vocais de apoio bastante destacados. A canção homônima ao álbum e composta pelo produtor já apresenta uma atmosfera que começa a se encaixar no perfil geral que tem a obra, ainda sim que trabalhe com uma linha de guitarra que se faz presença nos momentos apropriados. "I Get Mad", parceria do produtor com Joe Cocker representa o último momento que se aproxime da época do Mad Dogs ou da Grease Band, possuindo um conjunto de metais e teclas com viradas de bateria pontuais, que dão o suporte necessário a voz de Cocker. A primeira das faixas que se aproxima do gospel é "Sing Me A Song" canção do colega de Grease Band, Henry McCullough (guitarrista que chegou a tocar no Wings): teclas imponentes e vocais negros femininos bastante acentuados. Esse momento repetiria-se em "Don't Forget Me", de Harry Nilson e "It's A Sin When You Love Somebody", essa com um vocal de Joe Cocker mais característico. Composta por Jimmy Webb, "The Moon Is A Harsh Mistress" e a última faixa do álbum, "Guilty" do também músico de sessão Randy Newman, exploram a voz de Cocker acompanhada de um arranjo quase que unicamente de teclas (no segundo caso, apenas voz e piano). "Performance" é uma faixa que lembra mais a sonoridade da soul music, com uso em larga escala dos vocais de apoio em falsete. O Hit absoluto do álbum foi a belíssima canção de amor "You're So Beautiful", que nessa versão dá realmente uma nova façeta de um Joe Cocker inspirado e bem acompanhado de um arranjo impecável.
                A recepção do álbum nas paradas norte-americanas foi bastante satisfatória a nível de uma volta do artista à superfície após superar o vício da heroína, alcançando no chart da Billboard a décima primeira posição. Em relação aos singles, o Top 5 aguradariam no ano de 1975 as faixas "It's A Sin When You Love Somebody" e "You're So Beautiful", ambas com a quinta posição. Ainda no ano de lançamento, "Put Out The Light" chegou à quadragésima sexta posição."I Can Stand A Little Rain" justifica o largo uso do piano devido aos músicos que compuseram e trabalharam no álbum serem sobretudo pianistas: Jimmy Webb, o produtor (e renomado músico de sessão) Jim Price, além de Randy Newman. Esse grupo assina metade do trabalho, que é completado também pelo pianista Toussaint, por Billy Preston e por Harry Nilson, que não escondia alguma habilidade com as teclas. Essa tática pode ter sido usada para aliar a técnica vocal de Joe Cocker com alguma espécie de requinte capaz de atrair um público mais amplo. Mas, a medida que o ano de 1974 ia se encerrando, mais obrigações chegariam á conta de Joe, afinal, "Jamaica Say You Will", seu lançamento do ano seguinte, estava em processo de produção e havia ainda uma longa estrada de controle pessoal e profissional para percorrer.


Avaliação:


Ficha Técnica:
Gravadora:A&M
Lançamento:1974
Gênero:Pop Rock, Rock e Soul


Faixas:

A1) Put Out The Light Compositor: Daniel Moore 4:13
A2) I Can Stand A Little Rain Compositores: Jim Price3:33
A3) I Get Mad Compositores: Dennis Wilson e Joe Cocker3:41
A4) Sing Me A Song    Compositor: Henry McCullough2:28
A5) The Moon Is A Harsh Mistress Compositor: Jimmy Webb3:33
B1) Don't Forget Me   Compositor: Harry Nilson3:22
B2) You Are So Beautiful  Compositor: Billy Preston e Bruce Fisher2:41
B3) It's A Sin (When You Love Somebody) Compositor: Jimmy Webb3:47
B4) Performance Compositor: Allain Toussaint4:40
B5)  GuiltyCompositor: Randy Newman2:48



Créditos:

Vocais: Joe Cocker
Vocais de Apoio:Clydie King(2,4,8,9), Daniel Moore(1), Merry Claiton(2) Sherlie Matthews(2,4,8,9) e  Venetta Fields(2,4,8,9)
Baixo: Chris Stewart(4,5), Chuck Rainey(1) e Dave McDaniel
Violão/Guitarra:Cornell Dupree(3), Henry McCullough(2,5), Jay Graydon(2,4,8,9) e Ray Parker(1,8,9)
Bateria:Bernard Purdie(3), Jeff Porcaro(2,5) e Ollie Brown(1,8,9)
Piano:David Paich(1,8), Greg Matheson (9), Jim Price, Jimmy Karstein(4), Jimmy Webb, Nicky Hopkins(5,6),                            Randy Newman e Richard Tee            
Órgão:Jim Price, Peggy Sandvig(6) e Richard Tee(3)
Saxofone Alto:Jim Horn(1,3)
Saxofone Tenor:Jim Price(1,3) e Mayo Tiana(1,3)
Trompete: Steve Madaio(1,3) e Stu Blumberg(1,3)
Arranjador: Jim Price
Engenheiros:Carlton Lee, Joe Tuzen, John Jansen, Ken Klinger, Marco Aglietti, Nat Jeffrey e Richard Heenan
Produtor:Jim Price
  •  Gravado no Village Recorder, Los Angeles, Estados Unidos, 1973-74

Vídeos:

Put Out The Light

You Are So Beautiful


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quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

The Orchestra - No Rewind (2001)


                Os frutos que a Electric Light Orchestra deixou no mundo da música iriam além dos grandes sucessos e inovações que o grupo permitiu ao gênero. Os últimos lançamentos do grupo, adentrado nos anos oitenta e controversos pela marca de administração de Jeff Lynne gerariam um último trabalho em 1986 com apenas três membros (Beavan e Tandy, além do próprio Jeff) significou uma pausa que poderia tornar-se o último trabalho da banda. No final da década, Bev, que era membro fundador assim como o guitarrista, decide vender para Lynne os “naming rights” que constavam em sua parte, e assim com algum tempo foi permitido pelo próprio Lynne o nome de Electric Light Orchestra Pt. 2 para o projeto de Bevan, que contaria ainda com mais três membros da formação marcante do grupo entre 1975 e 1979, Groucutt no baixo, McDowell no cello e Mik Kaminski no violino. Mesmo com primeiro lançamento, sendo responsável por toda uma nova geração de fãs ao redor do mundo e realizando o sonho para ouvintes de países que a ELO não viajou, o grupo contou com diversas formações, e em 1999, com a saída do idealizador, Bev Bevan deixou os manetes com Kelly Groucutt. A partir daí e aproveitando músicos que já estavam na banda como Eric Troyer e Louis Clark e acrescentando outros, como o músico de sessão e com carreira solo já madura Parthenon Huxley no lugar de Phil Bates e Gordon Townsend a substituir Bev. O grupo ganha novo fôlego, e decide que o inicio dos anos 2000 contaria com um álbum de inéditas.
                Inicialmente com o intuito de ser uma edição limitada que coincidisse com a tour do grupo no Reino Unido em 2001, o projeto contou com a produção da trinca Jim Jacobsen, P.Hux e Troyer. Uma das motivações da banda de realizar seus desejos foi a produção do álbum que não contou com contribuição real (ou dinheiro) por parte da gravadora, deixando todo o processo de construção em algo como dois anos. O álbum contaria ainda com três capas diferentes, dependendo da localização.  Além da própria da ocasião de edição limitada, contaria com uma edição especialmente Argentina e com arte de P.Hux (com as mesmas faixas, mas contando como extra anotações detalhadas sobre a banda) de 2004 além da edição de 2006, esta na conta de George Reed, companheiro de velha data da banda. O título adotado, “No Rewind”, seria adotado na capa da última edição como uma inscrição nos painéis do estúdio de gravação, o que abre parêntese para a interpretação de novos ares que aspiravam para a obra. Em relação às músicas, e ao contrário do genitor ELO, são compostas mais democraticamente, mesmo contando com participação massiva de Parthenon e Eric Troyer.
                Fica bastante nítido que um dos esforços de todos os envolvidos foram as harmonias vocais (além das cordas, orquestradas com a batuta de Louis Clark), que são fortes nos refrãos da maioria das faixas, uma contribuição dos grandes vocalistas Groucutt e Troyer, que se alternam para esse fim, o que dá um resultado mais parecido aos trabalhos da Electric Light Orchestra no final da década de 70 ("Out Of The Blue" e principalmente "Discovery"). O violino foi bastante requisitado e chegou a constuir um "riff" em "Jewel and Johnny", música de P. Hux e que conta também com uma boa pista de bateria assinada por Gordon. Troyer assina as duas faixas seguintes, "Say Goodbye" (no melhor estilo "The Diary of Horace Wimp") e com uma bela linha de baixo de Kelly, "No Rewind", que é um verdadeiro desabafo em relação às mentiras e complicações que possam haver em um relacionamento. A única participação do mentor de toda essa aventura (também conhecido como Bev Bevan) ocorre na parceria com Huxley na composição de "Over London Skies", que em muito se assemelha com seus trabalhos solos anteriores. A surpresa do álbum (e uma das faixas que passou a ser tocada ao público) é o cover de "Twist and Shout", marcado por uma introdução refinada e beirando, esse sim os projetos anteriores à 1975 da Electric Light Orchestra, em outra mão, o resto da faixa, incluindo o refrão é bastante pop e ironicamente ousado e diferente de todos os covers já feitos. O efeito "crossfade" que transita entre essa e a faixa seguinte surge ao melhor estilo vinheta das rádios inglesas piratas dos anos 60 com os dizeres "Escutem essa próxima" (experimentos em escala mundial foram feitos em trabalhos como "Sell Out" e à moda tupiniquim no homônimo "Ronnie Von"). "Can't Wait Too See You" além de ser a última contribuição de P.Hux como compositor único no trabalho, saiu direto dos seus trabalhos solos (o lançamento ao vivo "In Your Living Room" contava com uma versão acústica da faixa). Apesar disso, a música recebeu uma repaginada nas harmonias, no solo com slide e o violino de Mik Kaminski, que coube como uma luva nos intervalos entre os versos. Enquanto "If Only" soa como uma música que realça mais o vocal de Troyer (também o compositor) e o arranjo rico de Clark, "I Could Write I Book" é um pop rock que é o manual sobre como reverter os reveses em boas histórias que gerariam livros. Neles, sonhos interrompidos, amor e ódio e desapontamentos seriam pautas para a conturbada vida pessoal do personagem. "Let Me Dream" segue as três tônicas que marcam esse álbum: é uma composição de Eric Troyer, possui harmonias vocais ricas (com auxílio de Groucutt) e conta com o violino mais audível e agradável do que nunca. Mesmo assim, para surpresa e destaque, essa faixa foi composta em parceria com Kaminski. Diz a tradição ocidental que as melhores surpresas devem aparecer no final dos acontecimentos, para gerar ansiedade em um primeiro nível, mas seguido por satisfação pela espera. Nesse caso específico, mas do que nunca "Before We Go" cumpre as expectativas. Única música cantada em lead e composta por Groucutt (e participação de Troyer e Hux), seu destaque fica principalmente na letra sobre as consequências da intolerância religiosa (soando muito como uma faixa tributo ao 11/9). O sentimento de Groucutt nos vocais, os coros vocálicos na introdução, a pista de bateria e o solo de guitarra por encomenda deixam o sentimento de idas e vindas amorosas que dava o tom em todo o álbum de lado para um momento verdadeiramente de reflexão.
                As pretensões humildes do grupo (que não contaram com nenhum incentivo da gravadora) contaram com relativo sucesso por entre os festivais de música (Vinã del Mar, por exemplo) e shows propriamente ditos (Phillips Arena, em Vilnius ou a tour na América do Sul), ganhando admiração e carinho de todos os fãs mais próximos tanto da formação "The Orchestra" quanto os dos tempos da nave-mãe, conhecida como Electric Light Orchestra. Dedicado aos fãs, todo o grupo assinou o trabalho como "uma enfática resposta à respeito de tudo, inclusive aos anos testando e resolvendo os problemas". Antes da assinatura do grupo, uma breve e clara orientação, em algo como "Curta com som alto!".

  • Avaliação:



  • Ficha Técnica:
Gravadora:ART Music
Lançamento:2001
Gênero:Pop e Power Pop


  • Faixas:
1) Jewel And Johnny Compositor: Parthenon Huxley3:56
2) Say Goodbye     Compositor: Eric Troyer4:25
3) No RewindCompositor: Eric Troyer4:07
4) Over London SkiesCompositores: Bev Bevan e Parthenon Huxley4:32
5) Twist And ShotCompositores: Bert Russel e Phil Medley6:34
6) Can't Wait Too See YouCompositor: Parthenon Huxley3:28
7) If OnlyCompositor: Eric Troyer4:38
8) I Could Write A BookCompositor: Eric Troyer3:12
9) Let Me DreamCompositor: Eric Troyer e Mik Kaminski4:00
10) Before We GoCompositores: Eric Troyer, Kelly Groucutt e Parthenon Huxley5:05


  • Créditos:
Vocais:Eric Troyer (2,3,5,7,8 e 9), Kelly Groucutt (10) e Parthenon Huxley (1,4 e 6)
Vocais de Apoio:Eric Troyer, Kelly Groucutt e Parthenon Huxley
Baixo:Kelly Groucutt
Guitarra:Eric Troyer e Parthenon Huxley
Violão:Parthenon Huxley
Teclados:Eric Troyer e Louis Clark
Bateria:Gordon Townsend
Violino:Mik Kaminski
Arranjo e Orquestra:Louis Clark  
Engenheiros:James O'Connell (1,10) e Jim Jacobsen
Produção:Eric Troyer, Jim Jacobsen e Parthenon Huxley


  • Masterizado no Sterling Studios, New York, 1999-2001

  • Vídeos:
Over London Skies

I Could Write A Book
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quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Eric Clapton - Another Ticket (1981)




                O que três bandas importantíssimas do final dos anos sessenta como Yardbirds, Cream e Blind Faith teriam em comum além da ótima qualidade de seus músicos e a sonoridade que desfilava junto ao blues combatendo o som mais harmonioso da música pop? Em especial, uma pessoa: Eric Patrick Clapton, o guitarrista que veio a ser conhecido como God (ou Deus) após uma de suas exibições na capital inglesa. O guitarrista e maior expoente do gênero sul norte-americano passou pelas décadas de 60 e 70 explorando ao máximo algumas de suas facetas, seja como guitarrista, vocalista, integrante de algum grupo ou o protagonista de seus próprios êxitos em uma carreira solo bastante estável e intercalada com sucessos a partir dos idos de 1974, com o clássico "461 Ocean Boulevard" (endereço que seus colegas, os irmãos Gibb, fixariam residência para a nova fase da carreira). Esse álbum levaria o cover "I Shoot The Sheriff" ao número um da Billboard e com isso varrendo também os graves problemas de dependência química (heroína em especial) que estava submetido em anos anteriores. Com algumas controvérsias ainda no final da década de 70, como incidentes de acusações de racismo, Clapton chega aos anos oitenta com dificuldades de sintonizar-se com a música pop, e foi na América Central que "God" tentaria solucionar esse problema, surgindo aí o desafio "Another Ticket".
                No ano que marcaria a volta de Clapton ao cenário da música pop, o músico enfrentou mais uma de várias recaídas devido ao alcoolismo, problema esse que causou graves úlceras no músico. As preocupações começariam com a recusa da Polydor/RSO ao projeto inicial produzido junto ao calejado Glyn Johns, não deixando a Eric outra escolha se não escalar o versátil produtor Tom Dowd, que já havia trabalhado com Clapton e sabia como explorá-lo para obter a sonoridade desejada, nesse caso, para retificação dos problemas alegados pela gravadora. A banda que o músico apresentou em estúdio era composta por Gary Brooker, integrante do Procol Harum, ficou encarregado pelos teclados (com Chris Stainton) além de ser co-autor da última faixa. Henry Spinetti nas baquetas, Albert Lee na guitarra e Dave Markee no baixo completariam o line-up. "Another Ticket" seria lembrado também por ser a última produção da parceria do guitarrista com a gravadora, que já duravam 15 anos. Em especial, Clapton teve tempo o suficiente e acabou por assinar seis das nove faixas.
                O álbum é principalmente regado pelo blues, mesmo com vários momentos em que apresenta uma mistura com a música country, dando um padrão mais heterogêneo ao lançamento. A abertura do trabalho se dá com o blues "Something Special", afirmando que a sua pretendente é "boa o suficiente para ele". Na toada dos covers, temos a country "Black Rose", fruto da parceria de Eddie Setser e Troy Seals, direto das composições de Muddy Waters o blues "Blow Wind Blow", carregado de guitarra e da técnica Walkin' Bass (ou o baixo "andando") tocado por Markee e sendo esse seu maior momento no álbum, além do blues raiz em homenagem ao grande Sleepy John Estes, falecido anos antes, com a faixa "Floating Bridge". A faixa título e escolhida para representar o álbum nos charts da Billboard é a mais tranquila do álbum, beirando o easy listening. Possui pelas linhas de teclas de Brooker e Stainton, além da bateria de Spinetti com viradas providenciais. Uma parte interessante da faixa são as harmonias vocais construídas entre Eric, Gary e Albert Lee, construindo assim a faixa mais diferenciada de todo o álbum. Escolhida pelo público e crítica como o carro-chefe da obra e última faixa do lado A, "I Can't Stand It" é um blues rock bem encorpado à sonoridade dos anos oitenta, com os riffs de teclado e piano, além da sonoridade única que Clapton adiciona a qualquer uma de suas faixas. O lado B de "Another Ticket" começa com o country no seu mais puro significado com "Hold Me Lord" recheada com o duo das guitarras de Clapton e Lee além dos vocais de apoio bastante utilizados no refrão. Como característica desse álbum, as teclas de Gary e Chris Stainton não passariam despercebidas. Única faixa em que Eric Clapton compôs em parceria, "Catch Me If You Can" é desafiadora desde seu título e letra e encontra um duelo de guitarras fruto de improviso e habilidade dos músicos envolvidos no projeto. A faixa mais pesada do grupo e que beira um rock mais pesado com blues e a faixa em que todos os músicos possuem uma maior participação, "Rita Mae" possui um ritmo agilizado pelos diversos riffs e solos de guitarra e acompanhado pela bateria e baixo marcando o tempo com as teclas que ocasionalmente soam audíveis, fechando assim um álbum que de uma maneira ou outra, convenceu a gravadora que o certo era liberá-lo para todos os admiradores da boa música.
                Lançado em 17 de fevereiro de 1981, a despedida de Clapton da RSO significou um grande êxito para as partes, a Billboard 200, o chart de álbuns mais popular do globo colocaria o trabalho na sétima colocação, além do Billboard Hot 100 cravar "I Can't Stand It" na décima colocação e "Another Ticket" na septuagésima oitava. Outro chart que premiou Clapton foi o Mainstream Rock Tracks, que incluiu quatro faixas nos seus charts, "Blow Wind Blow" e "Catch Me If You Can" cravariam na 24ª e 23ª posição enquanto no Top Ten estariam Rita Mae, justamente na décima posição e "I Can't Stand It" triunfando no topo da tabela. O álbum veio a ser disco de ouro, ratificando uma boa produção e um trabalho recompensado. Pelo grande músico que é "Another Ticket" não fora lembrado em face aos consecutivos êxitos de uma carreira solo de 40 anos, mesmo assim, significa em sua essência uma recuperação satisfatória do músico em relação aos seus problemas pessoais.


  • Avaliação:





  • Ficha Técnica:
Gravadora:RSO
Lançamento:1981
Gênero:Blues e Country


  • Faixas:
A) Something SpecialCompositor: Eric Clapton2:38
A) Black RoseCompositores: Eddie Setser e Troy Seals3:44
A) Blow Wind BlowCompositor: Muddy Waters2:58
A) Another TicketCompositor: Eric Clapton5:43
A) I Can't Stand ItCompositor: Eric Clapton4:07
B) Hold Me LordCompositor: Eric Clapton3:27
B) Floating BridgeCompositor: Sleepy John Estes6:32
B) Catch Me If You CanCompositores: Eric Clapton e Gary Brooker4:24
B) Rita MaeCompositor: Eric Clapton5:03


  • Créditos:
Vocais:Eric Clapton
Vocais de Apoio:Albert Lee, Eric Clapton e Gary Brooker
Baixo:Dave Markee
Guitarras:Albert Lee e Eric Clapton
Violão:Albert Lee e Eric Clapton
Piano e Teclados:Chris Stainton e Gary Brooker
Órgão:
Gary Brooker (2)
Bateria:Henry Spinetti
Percussão:Henry Spinetti
Engenheiros:Michael Carnevale e Tom Dowd
Produtor:Tom Dowd

  • Gravado no Compass Point Studios, Nassau, Bahamas, 1980


  •  Vídeos:
Another Ticket


Hold Me Lord



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sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Carl Wilson - Carl Wilson (1981)



            Os anos 60 representou para o Beach Boys muito mais do que uma mera concorrente do formato Tio Sam dos Beatles. Para a música, foi um grupo de incomum talento e que dividia entre alguns dos integrantes da família Wilson (Brian, Dennis, o próprio Carl e o primo Mike Love) e colegas como Al Jardine e Bruce Johnston a responsabilidade de guiar o som californiano que era tendência e repetido na Califórnia. As dificuldades que os garotos da praia encontraram foram diversas: o colapso de Brian Wilson em 1967 e a ausência de sucesso obrigou a banda a tomar as decisões de momento que com o tempo mostraram-se não serem as mais corretas. Passada mais de uma década e o som degringolando para a disco, junto à infelicidade de Carl com tal sonoridade resultou ao guitarrista seguir os passos do irmão e baterista Dennis a lançar suas faixas em um álbum solo, surgindo assim "Carl Wilson".            
            Conhecido como o lado mais rock'n'roll em comparação ao irmão Brian, Wilson tinha como ídolo de juventude o guitarrista Chuck Berry, fato que o influenciou profundamente no timbre e no modelo das guitarras, como as Gibsons Riviera 12 strings e E-335. Para os ajustes do seu debut, os manetes da produção ficaram com Jim Guercio, conhecido como manager do Chicago durante um bom tempo. Os estúdios da Caribou Ranch cheiravam à criatividade e sucesso, já que dentre os músicos e bandas que estiveram ali poderíamos citar Supertramp, Frank Zappa, Emerson, Lake & Palmer, Michael Jackson, Elton John (com seu álbum "Caribou" de 1974) além do próprio Beach Boys. As faixas são assinadas em maioria por Carl e a esposa de seu empresário, Myrna Smith, que colaborou também com os vocais.            
             Um diferencial do álbum solo em relação aos Beach Boys foi a sonoridade, que assim como muita coisa no final da década de 70, migrou da disco music para o Album-Oriented Rock (ou simplesmente AOR). Essa mudança é notada principalmentente no lado A da obra, com músicas carregadas de bateria e da Gibson de Wilson, além dos vocais ora dualizados ("Hold Me") ora apenas como vocais de apoio ("Bright Lights" e "What You Gonna Do About Me") com Myrna Smith. No encargo de guitarrista, o solo final e o riff de "The Right Lane" é o grande destaque de Carl Wilson no álbum. Tudo que o lado A têm de rock'n'roll faz com que o lado B equilibre-se num pop bastante leve, e com uso do violão invés da Gibson, e é nesse lado que a aventura de Wilson o faz prova de um vocalista com um potencial muito grande. "Hurry Love" possui além dos versos apaixonados um belo arranjo com direito a uma steel guitar muito bem plantada na faixa. Com um violão mais explorado, bem como o baixo de James Guercio que faz do acompanhamento praticamente protagonista, "Heaven" é de longe a melhor música de todo o álbum, nela, os vocais precisos de Carl Wilson, o arranjo com as guitarras bem colocadas e a letra que diz sobre o amor puro e o pedido do céu estar na terra, já que sua amada parecia "ser um anjo enviado por Deus". Para quebrar o ritmo das duas faixas ballad, é colocado mais um AOR e com participação de Smith nos vocais de apoio: "The Grammmy", que como de se esperar, fala sobre o universo da música mainstream. A obra é encerrada commais uma faixa pop ballad, a bela "Seems So Long Ago" que retrata as lembranças do músico em relação à infância e a relação com os pais, o belo solo de saxofone de Joel Peskin na ponte da música, acompanhando até o fim a melodia. Podemos então concluir a intenção de Guercio e Wilson em relação a intercalar as músicas com fim de não transformar o álbum em um completo AOR, ou em um completo pop-ballad, o que deu um resultado satisfatório em uma época de readaptação para o cenário musical.
            "Carl Wilson" foi produzido em 1980 e lançado no ano seguinte, e conseguiu entrar no Billboard 200, na posição de número 185, sendo assim apenas mais uma chegada ao celeiro e laboratório da música mundial, os Estados Unidos. Mas para o ponto de vista de Wilson, a fórmula e a recepção foram animadoras, já que a ponta de sucesso que o álbum adquiriu dependeu da musicalidade e preferencias do mesmo, não precisando seguir tendências ou algo parecido. Os resultados então fariam o músico a seguir a carreira solo sem deixar de lado a banda que o fez mundialmente famoso, podendo inclusive ter a oportunidade de conciliar as duas coisas no palco. O ano de 1981 fechou como um ano de boas vibrações, não necessariamente as mesmas cantadas pelo próprio com os Beach Boys no final dos saudosos anos 60.

  • Avaliação 



  • Ficha Técnica
Gravadora:Caribou Records / Brothers Records
Lançamento:1981
Gênero:AOR e Ballad


  • Faixas:
A1) Hold MeCompositores: Carl Wilson e Myrna Smith4:05
2) Bright LightsCompositores: Carl Wilson e Myrna Smith3:52
A3) What You Gonna Do About MeCompositores: Carl Wilson e Myrna Smith4:29
A4) The Right LaneCompositores: Carl Wilson e Myrna Smith5:22
B1) Hurry LoveCompositores: Carl Wilson e Myrna Smith4:47
B2) HeavenCompositores: Carl Wilson e Myrna Smith4:28
B3) The GrammyCompositores: Carl Wilson e Myrna Smith3:08
B4) Seems So Long AgoCompositores: Carl Wilson e Myrna Smith4:59

  • Créditos:
Vocais:Carl Wilson e Myrna Smith
Vocais de Apoio:Carl Wilson e Myrna Smith
Baixo:Gerald Johnson (3,5) e James William Guercio (1,2,4,6,7,8)
Guitarra:
Carl Wilson, James William Guercio (4,5) e John Daly (1,4,5,6)
Violão:Carl Wilson e James William Guercio (5,7)
Slide Guitar:John Daly (5)
Bateria:James Stroud
Teclados:Carl Wilson e Randy McCormick (7,8)
Órgão:Carl Wilson
Percussão:James Stroud (2) e James William Guercio (3,4,5,8)
Cowbell:Carl Wilson (1), James Stroud (2)
Shaker:James Stroud (3)
Tamborim:Alan Krieger (4) e James Stroud (7)
Saxofone:Joel Peskin (8)
Engenheiros:Wayne Tarnowski e David "Gino" Giorgini
Produção:James William Guercio

  • Gravado no Caribou Ranch, Colorado, EUA, Setembro-Dezembro de 1980

  • Vídeos:
Hold Me


Hurry Love


 

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