A psicodélica
e efervescência que ocorria no Brasil alguns anos após o golpe militar daquele
último dia de março de 1964 vinha colhendo bons frutos a caráter de qualidade
musical. Um dos músicos tupiniquins a fazer todo esse estudo do que ocorria
fora das nossas fronteiras foi Ronnie Von, com um álbum homônimo que resgatou
muito do som da invasão britânica. Já nessa época, esse tipo de som era visto
como uma afronta tanto ao regime como a música popular brasileira que estava
estabelecida. É numa dessas bandas que surge o Som Imaginário, que na sua
formação do primeiro lançamento contava com Zé Rodrix, Robertinho Silva,
Frederiko, Luiz Alves, Tavito e Wagner Tiso. O lançamento, recheado da
musicalidade ácida era camuflado pelas habilidades "jazzísticas" que
tinham metade de seus integrantes, Tiso, Alves e Silva, que traziam consigo um
universo de sonoridades que fariam dessa banda muito mais do que uma banda
psicodélica. Os primeiros anos do artigo quinto passaram, e com eles a saída de
Rodrix do grupo (formando trio com os colegas Sá e Guarabyra), além de um
lançamento, dessa vez bem mais ácido e pesado que o anterior, justificando à
batuta que agora Fredera regia o grupo. Como prova dessa habilidade quase
camaleoa dos músicos, "A Matança do Porco" representaria mais um
capítulo na história dessa banda, que de mera acompanhante das turnês de
artistas como Milton Nascimento e Marcos Valle, viria a ser, por um curto
espaço de tempo, dona de sua própria fama.
A ordem
dos lançamentos anteriores do grupo auxilia na explicação das decisões tomadas
nesse singular lançamento. Enquanto "Som Imaginário" e "Som
Imaginário - Nova Estrela" estiveram regidos por Rodrix (assinando faixas,
tocando flauta, nos vocais e nas teclas) e por Frederyko (nas guitarras
distorcidas, vocais e nas composições), dessa vez o trabalho todo ficou por
conta não de dois músicos de formação em rock e que já não estavam mais na
formação da banda, mas sim por Tiso, que era um jazzista convicto. A ordem dos
acontecimentos o permitiu assinar as faixas além de arranjar todas as melodias
daquele que seria até segunda ordem, o único álbum sem a psicodelia, presente
muito fortemente em momentos anteriores. Uma ressalva interessante é que os
músicos de sessão tiveram papel fundamental na sonoridade, a exemplos de Danilo
Caymmi, os guitarristas Chiquito e Frederyko, a percussão de Chico Batera, e as
conduções de Gaya e Verocai com auxílio da orquestra da gravadora, a Odeon. A
produção seria ainda marcada pelo trabalho do competente Milton Miranda.
Trabalhado
em sobressalto às teclas e os arranjos de guitarra dos três guitarristas
envolvidos, o álbum premia o ouvinte com nove faixas que caminham muito por
dentro da sonoridade do jazz, do progressivo e da música regional. De forma
geral, é talhado em cima do instrumental, que como obra máxima possui "A
Matança do Porco" (e sua incrível capacidade de passar diversos
sentimentos ao ouvinte, como o padecimento e a angústia). Com mais de onze
minutos de duração e dividida basicamente em um primeiro momento (até os sete
minutos) carregados de um rock progressivo mais pesado, com uma espetacular
linha de guitarra de Fredera seguido por uma parte altamente sinfônica (sob a
batuta de Gaya, em uma de suas duas participações) e com os arranjos vocais de
Milton Nascimento e do quarteto vocálico Golden Boys, sequência que se mantém
até o final da faixa. Uma boa junção entre Tiso e o som mais antigo do grupo é
a sequência "Armina", que caminha mais pelo jazz, e que conta em
momentos oportunos, com a presença do fuzz da guitarra de Frederyko, já como
músico de sessão e em uma de suas três participações na obra. Ainda em relação
a esse tema, foram adicionadas ao álbum três vinhetas sob a batuta de Arthur
Verocai, a primeira com um arranjo de sopro e basicamente sinfônica, a segunda,
bastante jazzística e com um Tiso bastante inspirado e a terceira estritamente
sinfônica, com os metais e o violino bastante presentes, contando com 0:45,
0:33 e 0:40, respectivamente. Partindo para um jazz fusion com bastante
brasilidade temos "A3", que é a faixa que explora melhor o conjunto:
Alves no contrabaixo, Silva nas baquetas, Tavito e Chiquito nas guitarras e
Tiso nas teclas, e é por esta linha que o grupo sai do local comum na música
comercializada, não bastaria apenas utilizar uma tendência do momento, mas
deveria-se quebrar barreiras utilizando muito da nossa música tradicional. É
nessa tônica que a oitava música do álbum, "Mar Azul" é trabalhada,
sobre a regionalidade e com a especialíssima participação de Danilo Caymmi na
flauta, que gera uma riqueza ainda maior a música. A boa-divergência (que
enriquece a obra) pode ser finalmente reduzida em duas faixas: a progressiva e
lisérgica "A nº2", (que possui em sua raiz um shape do samba) com
nova presença de Frederyko (contando com sintetizadores e uma sequência de
cozinha muito boa para o final da faixa) e o "Bolero" de Wagner,
liderados por seus riffs de teclas e o contrabaixo de Alves, além de nova
participação de Caymmi.
Finalizado
em 1973, esse marcaria o último registro em estúdio do Som Imaginário. A
inovadora obra que acabara de ser lançada, logo receberia o reconhecimento do
público específico para estar no hall dos melhores álbuns progressivos das
Américas, uma grande marca principalmente por se tratar de uma época em que o
gênero era profundamente difundido e inovado pelo continente. Os feitos dessa
reduzida formação do Som Imaginário marcaram não só uma nova fase na carreira
dos músicos (de forma individual), mas um marco para o rock nacional, que
alcançava outro patamar a critério de universo musical. A última obra desta
banda ratificaria uma capacidade ímpar e não mais vista desde então em manusear
as diversas musicalidades, além de uma discografia dignamente intocável no rock
brasileiro.
As influências da música
negra dos anos cinquenta e sessenta seriam decisivas na carreira de um dos
milhares de jovens da Inglaterra que tocavam o skiffle em bares e pubs da sua
Sheffield. John Robert, que viraria Joe e tempos depois assumiria o nome artístico
de Vance Arnold (vindo do personagem de Presley em "Jailhouse Rock"
Vince Everett e do cantor country Eddy Arnold) não ficou conhecido pelos
amantes de música por nenhum desses nomes. O que marcaria mesmo seria Joe
Cocker, preservando o apelido de longa data junto ao nome da família. Em 1963,
com a "Vance Arnold and the Avengers", banda de skiffle que tocava
basicamente covers de Ray Charles (uma das principais influências de Joe) e
Chucky Berry, conseguiu sua primeira façanha ao acompanhar a turnê dos Stones
que passavam por Sheffield. Desde o primeiro instante de sua carreira
profissional - após assinar com a Decca em 64 - (com o cover de "I'll Cry
Instead", que contou com o guitarrista à época de sessão, Jimmy Page),
Cocker interpretou diversos sucessos do Fab Four, com destaques para "She
Came Through The Bathroom Window" do debut "Joe Cocker!" e
"With a Little Help From My Friends", que viria a se tornar uma das
melhores interpretações do músico, especialmente no Festival de Woodstock, que
também interpretou as músicas "Feelin' Alright" da Traffic (que na
versão de seu debut conta com a percussão do brasileiro Laudir de Oliveira) e
aquela que traduziu o espírito do evento, "Let's Go Get Stoned", de
Ray Charles (juntamente com sua segunda banda relevante, a The Grease Band). O
sucesso do início dos anos 70 veio com shows da "Mad Dogs" e
"The Englishmen", porém tempos depois, Cocker se viu em um crescente
problema com o alcoolismo e a heroína (essa que ele conseguiu se livrar no
mesmo ano), e é dessa atmosfera que se começa o processo de criação de "I
Can Stand A Little Rain", ainda no final de 1973.
Como se
nota desde o início de sua carreira, Cocker está incluso na primeira leva de
músicos dos anos 50 e 60 que na maioria das vezes apenas se encarregaram de
interpretar, e não compor suas faixas. Vindo do lançamento de "Joe
Cocker", de 1972, onde assinou várias faixas com o colega de longa data
Chris Stainton, nesse novo trabalho além da reformulação dos musicos e da
produção, já que Jim Price realiza seu primeiro trabalho com Cocker, Joe
voltaria à velha forma e apenas assinaria uma faixa. De mantido dos trabalhos
anteriores estão a gravadora A&M, que foi responsável por todos os
lançamentos da carreira solo do cantor. Na capa de "I Can Stand A Little Rain", nota-se a feição de um
Cocker mais abatido e desiludido, mostrando uma maturidade que confirmaria-se
igualmente musical. A nível das composições, o álbum é bastante democrático
dentro do corpo de músicos que o acompanhou, tendo apenas três de compositores que não
participaram, sendo o duo Preston/Wilson, de Allen Toussaint e Harry Nilson (o
mesmo que regravou "Without You", do Badfinger). É interessante notar
que a produção ocorreu quase em paralelo com a do trabalho seguinte, que seria
lançado apenas no ano de 1975.
Em si,
o álbum é permeado faixas que circulam dentro da sonoridade pop rock com
momentos que lembram a música negra, em especial o gospel e o soul, além do uso
das teclas (sob a forma de piano, teclado ou mesmo o órgão) que tomam grande
contribuição nas faixas. As letras, de maneira geral, falam da tristeza, das
não realizações (como o hit), moldando-se facilmente ao arranjo. A primeira, a
animada "Put Out The Light" (composta pelo mesmo Daniel Moore que
compôs "Shambala" que ficou conhecida com o Three Dog Night), possui
um conjunto de metais afinado e também conta com os vocais de apoio bastante
destacados. A canção homônima ao álbum e composta pelo produtor já apresenta
uma atmosfera que começa a se encaixar no perfil geral que tem a obra, ainda
sim que trabalhe com uma linha de guitarra que se faz presença nos momentos
apropriados. "I Get Mad", parceria do produtor com Joe Cocker
representa o último momento que se aproxime da época do Mad Dogs ou da Grease
Band, possuindo um conjunto de metais e teclas com viradas de bateria pontuais,
que dão o suporte necessário a voz de Cocker. A primeira das faixas que se
aproxima do gospel é "Sing Me A Song" canção do colega de Grease
Band, Henry McCullough (guitarrista que chegou a tocar no Wings): teclas
imponentes e vocais negros femininos bastante acentuados. Esse momento
repetiria-se em "Don't Forget Me", de Harry Nilson e "It's A Sin
When You Love Somebody", essa com um vocal de Joe Cocker mais
característico. Composta por Jimmy Webb, "The Moon Is A Harsh
Mistress" e a última faixa do álbum, "Guilty" do também músico
de sessão Randy Newman, exploram a voz de Cocker acompanhada de um arranjo
quase que unicamente de teclas (no segundo caso, apenas voz e piano).
"Performance" é uma faixa que lembra mais a sonoridade da soul music,
com uso em larga escala dos vocais de apoio em falsete. O Hit absoluto do álbum
foi a belíssima canção de amor "You're So Beautiful", que nessa
versão dá realmente uma nova façeta de um Joe Cocker inspirado e bem acompanhado
de um arranjo impecável.
A
recepção do álbum nas paradas norte-americanas foi bastante satisfatória a
nível de uma volta do artista à superfície após superar o vício da heroína,
alcançando no chart da Billboard a décima primeira posição. Em relação aos
singles, o Top 5 aguradariam no ano de 1975 as faixas "It's A Sin When You
Love Somebody" e "You're So Beautiful", ambas com a quinta
posição. Ainda no ano de lançamento, "Put Out The Light" chegou à
quadragésima sexta posição."I Can Stand A Little Rain" justifica o
largo uso do piano devido aos músicos que compuseram e trabalharam no álbum
serem sobretudo pianistas: Jimmy Webb, o produtor (e renomado músico de sessão)
Jim Price, além de Randy Newman. Esse grupo assina metade do trabalho, que é completado
também pelo pianista Toussaint, por Billy Preston e por Harry Nilson, que não
escondia alguma habilidade com as teclas. Essa tática pode ter sido usada para
aliar a técnica vocal de Joe Cocker com alguma espécie de requinte capaz de
atrair um público mais amplo. Mas, a medida que o ano de 1974 ia se encerrando,
mais obrigações chegariam á conta de Joe, afinal, "Jamaica Say You
Will", seu lançamento do ano seguinte, estava em processo de produção e
havia ainda uma longa estrada de controle pessoal e profissional para
percorrer.
Avaliação:
Ficha Técnica:
Gravadora:
A&M
Lançamento:
1974
Gênero:
Pop Rock, Rock e Soul
Faixas:
A1) Put Out
The Light
Compositor:
Daniel Moore
4:13
A2) I Can
Stand A Little Rain
Compositores: Jim Price
3:33
A3) I Get
Mad
Compositores: Dennis Wilson e Joe Cocker
3:41
A4) Sing Me A
Song
Compositor:
Henry McCullough
2:28
A5) The Moon
Is A Harsh Mistress
Compositor:
Jimmy Webb
3:33
B1) Don't
Forget Me
Compositor: Harry Nilson
3:22
B2) You Are
So Beautiful
Compositor: Billy
Preston e Bruce Fisher
2:41
B3) It's A
Sin (When You Love Somebody)
Compositor:
Jimmy Webb
3:47
B4) Performance
Compositor: Allain
Toussaint
4:40
B5) Guilty
Compositor:
Randy Newman
2:48
Créditos:
Vocais:
Joe Cocker
Vocais de
Apoio:
Clydie King(2,4,8,9),
Daniel Moore(1), Merry Claiton(2) Sherlie Matthews(2,4,8,9) e Venetta
Fields(2,4,8,9)
Baixo:
Chris Stewart(4,5), Chuck
Rainey(1) e Dave McDaniel
Violão/Guitarra:
Cornell Dupree(3), Henry
McCullough(2,5), Jay Graydon(2,4,8,9) e Ray Parker(1,8,9)
Bateria:
Bernard Purdie(3), Jeff Porcaro(2,5) e Ollie Brown(1,8,9)
Piano:
David Paich(1,8), Greg
Matheson (9), Jim Price, Jimmy Karstein(4), Jimmy Webb, Nicky
Hopkins(5,6),
Randy Newman e Richard Tee
Órgão:
Jim Price, Peggy Sandvig(6)
e Richard Tee(3)
Saxofone Alto:
Jim Horn(1,3)
Saxofone Tenor:
Jim Price(1,3) e Mayo Tiana(1,3)
Trompete:
Steve Madaio(1,3) e Stu Blumberg(1,3)
Arranjador:
Jim Price
Engenheiros:
Carlton Lee, Joe Tuzen, John Jansen, Ken Klinger, Marco Aglietti, Nat
Jeffrey e Richard Heenan
Produtor:
Jim Price
Gravado no Village Recorder, Los Angeles, Estados Unidos,
1973-74
Os frutos que a Electric Light Orchestra deixou no mundo da música iriam além dos grandes sucessos e inovações que o grupo permitiu ao gênero. Os últimos lançamentos do grupo, adentrado nos anos oitenta e controversos pela marca de administração de Jeff Lynne gerariam um último trabalho em 1986 com apenas três membros (Beavan e Tandy, além do próprio Jeff) significou uma pausa que poderia tornar-se o último trabalho da banda. No final da década, Bev, que era membro fundador assim como o guitarrista, decide vender para Lynne os “naming rights” que constavam em sua parte, e assim com algum tempo foi permitido pelo próprio Lynne o nome de Electric Light Orchestra Pt. 2 para o projeto de Bevan, que contaria ainda com mais três membros da formação marcante do grupo entre 1975 e 1979, Groucutt no baixo, McDowell no cello e Mik Kaminski no violino. Mesmo com primeiro lançamento, sendo responsável por toda uma nova geração de fãs ao redor do mundo e realizando o sonho para ouvintes de países que a ELO não viajou, o grupo contou com diversas formações, e em 1999, com a saída do idealizador, Bev Bevan deixou os manetes com Kelly Groucutt. A partir daí e aproveitando músicos que já estavam na banda como Eric Troyer e Louis Clark e acrescentando outros, como o músico de sessão e com carreira solo já madura Parthenon Huxley no lugar de Phil Bates e Gordon Townsend a substituir Bev. O grupo ganha novo fôlego, e decide que o inicio dos anos 2000 contaria com um álbum de inéditas. Inicialmente com o intuito de ser uma edição limitada que coincidisse com a tour do grupo no Reino Unido em 2001, o projeto contou com a produção da trinca Jim Jacobsen, P.Hux e Troyer. Uma das motivações da banda de realizar seus desejos foi a produção do álbum que não contou com contribuição real (ou dinheiro) por parte da gravadora, deixando todo o processo de construção em algo como dois anos. O álbum contaria ainda com três capas diferentes, dependendo da localização. Além da própria da ocasião de edição limitada, contaria com uma edição especialmente Argentina e com arte de P.Hux (com as mesmas faixas, mas contando como extra anotações detalhadas sobre a banda) de 2004 além da edição de 2006, esta na conta de George Reed, companheiro de velha data da banda. O título adotado, “No Rewind”, seria adotado na capa da última edição como uma inscrição nos painéis do estúdio de gravação, o que abre parêntese para a interpretação de novos ares que aspiravam para a obra. Em relação às músicas, e ao contrário do genitor ELO, são compostas mais democraticamente, mesmo contando com participação massiva de Parthenon e Eric Troyer. Fica bastante nítido que um dos esforços de todos os envolvidos foram as harmonias vocais (além das cordas, orquestradas com a batuta de Louis Clark), que são fortes nos refrãos da maioria das faixas, uma contribuição dos grandes vocalistas Groucutt e Troyer, que se alternam para esse fim, o que dá um resultado mais parecido aos trabalhos da Electric Light Orchestra no final da década de 70 ("Out Of The Blue" e principalmente "Discovery"). O violino foi bastante requisitado e chegou a constuir um "riff" em "Jewel and Johnny", música de P. Hux e que conta também com uma boa pista de bateria assinada por Gordon. Troyer assina as duas faixas seguintes, "Say Goodbye" (no melhor estilo "The Diary of Horace Wimp") e com uma bela linha de baixo de Kelly, "No Rewind", que é um verdadeiro desabafo em relação às mentiras e complicações que possam haver em um relacionamento. A única participação do mentor de toda essa aventura (também conhecido como Bev Bevan) ocorre na parceria com Huxley na composição de "Over London Skies", que em muito se assemelha com seus trabalhos solos anteriores. A surpresa do álbum (e uma das faixas que passou a ser tocada ao público) é o cover de "Twist and Shout", marcado por uma introdução refinada e beirando, esse sim os projetos anteriores à 1975 da Electric Light Orchestra, em outra mão, o resto da faixa, incluindo o refrão é bastante pop e ironicamente ousado e diferente de todos os covers já feitos. O efeito "crossfade" que transita entre essa e a faixa seguinte surge ao melhor estilo vinheta das rádios inglesas piratas dos anos 60 com os dizeres "Escutem essa próxima" (experimentos em escala mundial foram feitos em trabalhos como "Sell Out" e à moda tupiniquim no homônimo "Ronnie Von"). "Can't Wait Too See You" além de ser a última contribuição de P.Hux como compositor único no trabalho, saiu direto dos seus trabalhos solos (o lançamento ao vivo "In Your Living Room" contava com uma versão acústica da faixa). Apesar disso, a música recebeu uma repaginada nas harmonias, no solo com slide e o violino de Mik Kaminski, que coube como uma luva nos intervalos entre os versos. Enquanto "If Only" soa como uma música que realça mais o vocal de Troyer (também o compositor) e o arranjo rico de Clark, "I Could Write I Book" é um pop rock que é o manual sobre como reverter os reveses em boas histórias que gerariam livros. Neles, sonhos interrompidos, amor e ódio e desapontamentos seriam pautas para a conturbada vida pessoal do personagem. "Let Me Dream" segue as três tônicas que marcam esse álbum: é uma composição de Eric Troyer, possui harmonias vocais ricas (com auxílio de Groucutt) e conta com o violino mais audível e agradável do que nunca. Mesmo assim, para surpresa e destaque, essa faixa foi composta em parceria com Kaminski. Diz a tradição ocidental que as melhores surpresas devem aparecer no final dos acontecimentos, para gerar ansiedade em um primeiro nível, mas seguido por satisfação pela espera. Nesse caso específico, mas do que nunca "Before We Go" cumpre as expectativas. Única música cantada em lead e composta por Groucutt (e participação de Troyer e Hux), seu destaque fica principalmente na letra sobre as consequências da intolerância religiosa (soando muito como uma faixa tributo ao 11/9). O sentimento de Groucutt nos vocais, os coros vocálicos na introdução, a pista de bateria e o solo de guitarra por encomenda deixam o sentimento de idas e vindas amorosas que dava o tom em todo o álbum de lado para um momento verdadeiramente de reflexão. As pretensões humildes do grupo (que não contaram com nenhum incentivo da gravadora) contaram com relativo sucesso por entre os festivais de música (Vinã del Mar, por exemplo) e shows propriamente ditos (Phillips Arena, em Vilnius ou a tour na América do Sul), ganhando admiração e carinho de todos os fãs mais próximos tanto da formação "The Orchestra" quanto os dos tempos da nave-mãe, conhecida como Electric Light Orchestra. Dedicado aos fãs, todo o grupo assinou o trabalho como "uma enfática resposta à respeito de tudo, inclusive aos anos testando e resolvendo os problemas". Antes da assinatura do grupo, uma breve e clara orientação, em algo como "Curta com som alto!".
Avaliação:
Ficha Técnica:
Gravadora:
ART Music
Lançamento:
2001
Gênero:
Pop e Power Pop
Faixas:
1) Jewel And Johnny
Compositor: Parthenon Huxley
3:56
2) Say Goodbye
Compositor: Eric Troyer
4:25
3) No Rewind
Compositor: Eric Troyer
4:07
4) Over London Skies
Compositores: Bev Bevan e Parthenon Huxley
4:32
5) Twist And Shot
Compositores: Bert Russel e Phil Medley
6:34
6) Can't Wait Too See You
Compositor: Parthenon Huxley
3:28
7) If Only
Compositor: Eric Troyer
4:38
8) I Could Write A Book
Compositor: Eric Troyer
3:12
9) Let Me Dream
Compositor: Eric Troyer e Mik Kaminski
4:00
10) Before We Go
Compositores: Eric Troyer, Kelly Groucutt e Parthenon Huxley
5:05
Créditos:
Vocais:
Eric Troyer (2,3,5,7,8 e 9), Kelly Groucutt (10) e Parthenon Huxley (1,4 e 6)
Vocais de Apoio:
Eric Troyer, Kelly Groucutt e Parthenon Huxley
Baixo:
Kelly Groucutt
Guitarra:
Eric Troyer e Parthenon Huxley
Violão:
Parthenon Huxley
Teclados:
Eric Troyer e Louis Clark
Bateria:
Gordon Townsend
Violino:
Mik Kaminski
Arranjo e Orquestra:
Louis Clark
Engenheiros:
James O'Connell (1,10) e Jim Jacobsen
Produção:
Eric Troyer, Jim Jacobsen e Parthenon Huxley
Masterizado no Sterling Studios, New York, 1999-2001
O que três bandas
importantíssimas do final dos anos sessenta como Yardbirds, Cream e Blind Faith
teriam em comum além da ótima qualidade de seus músicos e a sonoridade que
desfilava junto ao blues combatendo o som mais harmonioso da música pop? Em
especial, uma pessoa: Eric Patrick Clapton, o guitarrista que veio a ser
conhecido como God (ou Deus) após uma de suas exibições na capital inglesa. O
guitarrista e maior expoente do gênero sul norte-americano passou pelas décadas
de 60 e 70 explorando ao máximo algumas de suas facetas, seja como guitarrista,
vocalista, integrante de algum grupo ou o protagonista de seus próprios êxitos
em uma carreira solo bastante estável e intercalada com sucessos a partir dos
idos de 1974, com o clássico "461 Ocean Boulevard" (endereço que seus
colegas, os irmãos Gibb, fixariam residência para a nova fase da carreira).
Esse álbum levaria o cover "I Shoot The Sheriff" ao número um da
Billboard e com isso varrendo também os graves problemas de dependência química
(heroína em especial) que estava submetido em anos anteriores. Com algumas controvérsias
ainda no final da década de 70, como incidentes de acusações de racismo,
Clapton chega aos anos oitenta com dificuldades de sintonizar-se com a música
pop, e foi na América Central que "God" tentaria solucionar esse
problema, surgindo aí o desafio "Another Ticket".
No ano que
marcaria a volta de Clapton ao cenário da música pop, o músico enfrentou mais
uma de várias recaídas devido ao alcoolismo, problema esse que causou graves
úlceras no músico. As preocupações começariam com a recusa da Polydor/RSO ao
projeto inicial produzido junto ao calejado Glyn Johns, não deixando a Eric
outra escolha se não escalar o versátil produtor Tom Dowd, que já havia
trabalhado com Clapton e sabia como explorá-lo para obter a sonoridade
desejada, nesse caso, para retificação dos problemas alegados pela gravadora. A
banda que o músico apresentou em estúdio era composta por Gary Brooker,
integrante do Procol Harum, ficou encarregado pelos teclados (com Chris
Stainton) além de ser co-autor da última faixa. Henry Spinetti nas baquetas,
Albert Lee na guitarra e Dave Markee no baixo completariam o line-up.
"Another Ticket" seria lembrado também por ser a última produção da
parceria do guitarrista com a gravadora, que já duravam 15 anos. Em especial,
Clapton teve tempo o suficiente e acabou por assinar seis das nove faixas.
O álbum é
principalmente regado pelo blues, mesmo com vários momentos em que apresenta
uma mistura com a música country, dando um padrão mais heterogêneo ao
lançamento. A abertura do trabalho se dá com o blues "Something
Special", afirmando que a sua pretendente é "boa o suficiente para
ele". Na toada dos covers, temos a country "Black Rose", fruto
da parceria de Eddie Setser e Troy Seals, direto das composições de Muddy Waters o blues "Blow Wind Blow", carregado de guitarra e da técnica Walkin' Bass (ou o baixo "andando") tocado por Markee e sendo esse seu maior momento no álbum, além do blues raiz em homenagem ao grande Sleepy John Estes, falecido anos antes, com a faixa
"Floating Bridge". A faixa título e escolhida para representar o
álbum nos charts da Billboard é a mais tranquila do álbum, beirando o easy
listening. Possui pelas linhas de teclas de Brooker e Stainton, além da bateria
de Spinetti com viradas providenciais. Uma parte interessante da faixa são as
harmonias vocais construídas entre Eric, Gary e Albert Lee, construindo assim a
faixa mais diferenciada de todo o álbum. Escolhida pelo público e crítica como
o carro-chefe da obra e última faixa do lado A, "I Can't Stand It" é
um blues rock bem encorpado à sonoridade dos anos oitenta, com os riffs de
teclado e piano, além da sonoridade única que Clapton adiciona a qualquer uma
de suas faixas. O lado B de "Another Ticket" começa com o country no
seu mais puro significado com "Hold Me Lord" recheada com o duo das
guitarras de Clapton e Lee além dos vocais de apoio bastante utilizados no
refrão. Como característica desse álbum, as teclas de Gary e Chris Stainton não
passariam despercebidas. Única faixa em que Eric Clapton compôs em parceria,
"Catch Me If You Can" é desafiadora desde seu título e letra e
encontra um duelo de guitarras fruto de improviso e habilidade dos músicos
envolvidos no projeto. A faixa mais pesada do grupo e que beira um rock mais
pesado com blues e a faixa em que todos os músicos possuem uma maior
participação, "Rita Mae" possui um ritmo agilizado pelos diversos
riffs e solos de guitarra e acompanhado pela bateria e baixo marcando o tempo
com as teclas que ocasionalmente soam audíveis, fechando assim um álbum que de
uma maneira ou outra, convenceu a gravadora que o certo era liberá-lo para
todos os admiradores da boa música.
Lançado em 17 de
fevereiro de 1981, a despedida de Clapton da RSO significou um grande êxito
para as partes, a Billboard 200, o chart de álbuns mais popular do globo
colocaria o trabalho na sétima colocação, além do Billboard Hot 100 cravar
"I Can't Stand It" na décima colocação e "Another Ticket"
na septuagésima oitava. Outro chart que premiou Clapton foi o Mainstream Rock
Tracks, que incluiu quatro faixas nos seus charts, "Blow Wind Blow" e
"Catch Me If You Can" cravariam na 24ª e 23ª posição enquanto no Top
Ten estariam Rita Mae, justamente na décima posição e "I Can't Stand
It" triunfando no topo da tabela. O álbum veio a ser disco de ouro,
ratificando uma boa produção e um trabalho recompensado. Pelo grande músico que
é "Another Ticket" não fora lembrado em face aos consecutivos êxitos
de uma carreira solo de 40 anos, mesmo assim, significa em sua essência uma
recuperação satisfatória do músico em relação aos seus problemas pessoais.
Avaliação:
Ficha Técnica:
Gravadora:
RSO
Lançamento:
1981
Gênero:
Blues e Country
Faixas:
A) Something Special
Compositor:
Eric Clapton
2:38
A) Black Rose
Compositores:
Eddie Setser e Troy Seals
3:44
A) Blow Wind Blow
Compositor:
Muddy Waters
2:58
A) Another Ticket
Compositor:
Eric Clapton
5:43
A) I Can't Stand It
Compositor:
Eric Clapton
4:07
B) Hold Me Lord
Compositor:
Eric Clapton
3:27
B) Floating Bridge
Compositor:
Sleepy John Estes
6:32
B) Catch Me If You Can
Compositores:
Eric Clapton e Gary Brooker
4:24
B) Rita Mae
Compositor:
Eric Clapton
5:03
Créditos:
Vocais:
Eric
Clapton
Vocais de Apoio:
Albert
Lee, Eric Clapton e Gary Brooker
Baixo:
Dave
Markee
Guitarras:
Albert
Lee e Eric Clapton
Violão:
Albert
Lee e Eric Clapton
Piano e Teclados:
Chris
Stainton e Gary Brooker
Órgão:
Gary Brooker (2)
Bateria:
Henry
Spinetti
Percussão:
Henry
Spinetti
Engenheiros:
Michael
Carnevale e Tom Dowd
Produtor:
Tom
Dowd
Gravado no Compass Point Studios, Nassau, Bahamas, 1980
Os anos 60 representou para o Beach Boys muito mais do que uma mera concorrente do formato Tio Sam dos Beatles. Para a música, foi um grupo de incomum talento e que dividia entre alguns dos integrantes da família Wilson (Brian, Dennis, o próprio Carl e o primo Mike Love) e colegas como Al Jardine e Bruce Johnston a responsabilidade de guiar o som californiano que era tendência e repetido na Califórnia. As dificuldades que os garotos da praia encontraram foram diversas: o colapso de Brian Wilson em 1967 e a ausência de sucesso obrigou a banda a tomar as decisões de momento que com o tempo mostraram-se não serem as mais corretas. Passada mais de uma década e o som degringolando para a disco, junto à infelicidade de Carl com tal sonoridade resultou ao guitarrista seguir os passos do irmão e baterista Dennis a lançar suas faixas em um álbum solo, surgindo assim "Carl Wilson". Conhecido como o lado mais rock'n'roll em comparação ao irmão Brian, Wilson tinha como ídolo de juventude o guitarrista Chuck Berry, fato que o influenciou profundamente no timbre e no modelo das guitarras, como as Gibsons Riviera 12 strings e E-335. Para os ajustes do seu debut, os manetes da produção ficaram com Jim Guercio, conhecido como manager do Chicago durante um bom tempo. Os estúdios da Caribou Ranch cheiravam à criatividade e sucesso, já que dentre os músicos e bandas que estiveram ali poderíamos citar Supertramp, Frank Zappa, Emerson, Lake & Palmer, Michael Jackson, Elton John (com seu álbum "Caribou" de 1974) além do próprio Beach Boys. As faixas são assinadas em maioria por Carl e a esposa de seu empresário, Myrna Smith, que colaborou também com os vocais. Um diferencial do álbum solo em relação aos Beach Boys foi a sonoridade, que assim como muita coisa no final da década de 70, migrou da disco music para o Album-Oriented Rock (ou simplesmente AOR). Essa mudança é notada principalmentente no lado A da obra, com músicas carregadas de bateria e da Gibson de Wilson, além dos vocais ora dualizados ("Hold Me") ora apenas como vocais de apoio ("Bright Lights" e "What You Gonna Do About Me") com Myrna Smith. No encargo de guitarrista, o solo final e o riff de "The Right Lane" é o grande destaque de Carl Wilson no álbum. Tudo que o lado A têm de rock'n'roll faz com que o lado B equilibre-se num pop bastante leve, e com uso do violão invés da Gibson, e é nesse lado que a aventura de Wilson o faz prova de um vocalista com um potencial muito grande. "Hurry Love" possui além dos versos apaixonados um belo arranjo com direito a uma steel guitar muito bem plantada na faixa. Com um violão mais explorado, bem como o baixo de James Guercio que faz do acompanhamento praticamente protagonista, "Heaven" é de longe a melhor música de todo o álbum, nela, os vocais precisos de Carl Wilson, o arranjo com as guitarras bem colocadas e a letra que diz sobre o amor puro e o pedido do céu estar na terra, já que sua amada parecia "ser um anjo enviado por Deus". Para quebrar o ritmo das duas faixas ballad, é colocado mais um AOR e com participação de Smith nos vocais de apoio: "The Grammmy", que como de se esperar, fala sobre o universo da música mainstream. A obra é encerrada commais uma faixa pop ballad, a bela "Seems So Long Ago" que retrata as lembranças do músico em relação à infância e a relação com os pais, o belo solo de saxofone de Joel Peskin na ponte da música, acompanhando até o fim a melodia. Podemos então concluir a intenção de Guercio e Wilson em relação a intercalar as músicas com fim de não transformar o álbum em um completo AOR, ou em um completo pop-ballad, o que deu um resultado satisfatório em uma época de readaptação para o cenário musical. "Carl Wilson" foi produzido em 1980 e lançado no ano seguinte, e conseguiu entrar no Billboard 200, na posição de número 185, sendo assim apenas mais uma chegada ao celeiro e laboratório da música mundial, os Estados Unidos. Mas para o ponto de vista de Wilson, a fórmula e a recepção foram animadoras, já que a ponta de sucesso que o álbum adquiriu dependeu da musicalidade e preferencias do mesmo, não precisando seguir tendências ou algo parecido. Os resultados então fariam o músico a seguir a carreira solo sem deixar de lado a banda que o fez mundialmente famoso, podendo inclusive ter a oportunidade de conciliar as duas coisas no palco. O ano de 1981 fechou como um ano de boas vibrações, não necessariamente as mesmas cantadas pelo próprio com os Beach Boys no final dos saudosos anos 60.
Avaliação
Ficha Técnica
Gravadora:
Caribou Records / Brothers Records
Lançamento:
1981
Gênero:
AOR e Ballad
Faixas:
A1) Hold Me
Compositores:
Carl Wilson e Myrna Smith
4:05
2) Bright Lights
Compositores:
Carl Wilson e Myrna Smith
3:52
A3) What You Gonna Do About Me
Compositores:
Carl Wilson e Myrna Smith
4:29
A4) The Right Lane
Compositores:
Carl Wilson e Myrna Smith
5:22
B1) Hurry Love
Compositores:
Carl Wilson e Myrna Smith
4:47
B2) Heaven
Compositores:
Carl Wilson e Myrna Smith
4:28
B3) The Grammy
Compositores:
Carl Wilson e Myrna Smith
3:08
B4) Seems So Long Ago
Compositores:
Carl Wilson e Myrna Smith
4:59
Créditos:
Vocais:
Carl
Wilson e Myrna Smith
Vocais de Apoio:
Carl
Wilson e Myrna Smith
Baixo:
Gerald
Johnson (3,5) e James William Guercio (1,2,4,6,7,8)
Guitarra:
Carl Wilson, James William Guercio (4,5) e John Daly (1,4,5,6)
Violão:
Carl
Wilson e James William Guercio (5,7)
Slide Guitar:
John
Daly (5)
Bateria:
James
Stroud
Teclados:
Carl
Wilson e Randy McCormick (7,8)
Órgão:
Carl
Wilson
Percussão:
James
Stroud (2) e James William Guercio (3,4,5,8)
Cowbell:
Carl
Wilson (1), James Stroud (2)
Shaker:
James
Stroud (3)
Tamborim:
Alan
Krieger (4) e James Stroud (7)
Saxofone:
Joel
Peskin (8)
Engenheiros:
Wayne
Tarnowski e David "Gino" Giorgini
Produção:
James
William Guercio
Gravado no Caribou Ranch, Colorado, EUA, Setembro-Dezembro de 1980
"Durante os
anos cinquenta e sessenta, eu era o rei dos doo-be-doos e tra-la-las".
Essa foi a definição do homem sobre o próprio mito durante um show na sua
Brooklin em 2010. Neil Sedaka mais do que ninguém sabia do que falava: essa
época de sua carreira foi permeada por composições e gravações que estão até
hoje no imaginário das pessoas, hits que desde "Oh! Carol" de 1959 e
que de forma sucessiva iam se apresentando, como "Calender Girl",
"Stairway To Heaven", "Little Devil" e a conhecidíssima
"Happy Birthday Sweet Sixteen". Essa maré cheia teria ainda segundo o
mesmo uma abrupta pausa a partir do advento da Beatlemania, que quase por uma
década tragou os artistas que já estavam inseridos no cenário musical. A volta
de Sedaka teria início com lançamentos sem muito sucesso comercial, em uma
época que as grandes gravadoras e artistas não haviam ainda encontrado uma
sonoridade certa para o desencarno da era dos Beatles. Os primeiros anos da sua
nova fase o acréscimo ao setlist de novas composições como "I Am Song
(Sing Me)", "Solitaire", "Love Will Keep Us Together"
(do álbum de título irônico e profético: The Tra-la-la Days Are Over) e o maior
sucesso de até então, do álbum de 1974, a número um das paradas "Laughter
in The Rain". A partir de toda essa corrente de ascensão, e notando o novo
desenho do cenário da música popular, Neil Sedaka fez do ano de 1975 um ano
especial em sua carreira.
O ano começaria
especial já que sua faixa "Love Will Keep Us Together" tornou-se o
número um das paradas na mão de Captain and Tenille. Outra dupla popular à
época, o The Carpenters deixaria algumas aberturas de shows com Neil (o plano
que obviamente daria errado já que era o mito grande demais para ofuscar a
dupla, levando pouco tempo depois sua demissão sob argumento de estar
"roubando o seu show"), mesmo assim, a faixa "Solitaire foi
gravada pela dupla chegando ao top 20 e estabelecendo-o aos poucos no hall dos
compositores. A produção de Overnight Success, título sugerido por Carol Sager
(com nome "Hungry Years" e faixas extras nos EUA) assim como os
álbuns anteriores, também ficou por conta de Sedaka, em dupla com o recém-chegado
Robert Appère. Do mesmo modo, composições ficaram divididas na parceria de Neil
com Howard Greenfield/Phil Cody e a gravadora responsável foi a mesma que o
auxiliou na nova fase da carreira (na terra do Tio Sam): a Rocket Records. A
participação de Elton John no álbum se deu com o dueto "Bad Blood",
que viria a ser um estouro que colocaria Neil de volta à cena americana como
compositor e intérprete.
A segunda fase da
carreira estava a cada vez mais indo em direção ao mainstream, do pop que
sempre que possível apelava às raízes do R&B e da música negra de forma
geral, e esse lançamento tornou clara essa sua intenção. A característica
básica das teclas como instrumento de destaque nas músicas foi mantida, e
ocorreu o acréscimo da banda de apoio na participação, com uma bateria de Nigel
Olsson (baterista de Elton John), belos solos de guitarra e linhas de baixo de
Sklar. A obra têm muito êxito na escolha da ordem das faixas, que ora são
bastante agitadas e com caráter disco, como a abertura "Crossroads" e
"Baby Blue", com uma guitarra bastante “funkeada”, intercaladas por
uma justa homenagem ao "pai da música americana" Stephen Foster, na
canção "Stephen" e a balada mais forte nesse aspecto do álbum,
"New York City Blues", que esmiúça uma NYC repleta de pobreza e medo,
e que mesmo assim os jornais insistem em dizer que seja a maior cidade do país.
O maior sucesso do álbum seria a provocativa Bad Blood, cantada junto com John.
Essa faixa representou um definitiva ascendente na carreira de Neil, que
definitivamente incorporou o espírito que a música popular possuía naqueles
tempos. O primeiro lugar nas paradas só seria o primeiro passo do maior sucesso
em números. "Goodman Goodbye" é sem dúvida a faixa mais incomum para
um trabalho como esse: A música, composta por Cody/Sedaka tem o seu quê de
ameaçador e já pôde ser interpretada como contra o antissemitismo já que Sedaka
tinha ascendência judaica (versos como "Vá para o underground, se acha que
o mundo perdeu o juízo/você deveria ficar com pessoas da própria espécie/Tem
muita coragem em me chamar de irmão/Depois disso tudo não significamos nada um
para o outro"). Essa faixa foge à marca de faixas de bom astral que o
cantor costumava compor, e possui como instrumentos de destaque um solo de
saxofone do arranjador Jim Horn e uma percussão rica com muitas quebras de
intervalo. Tratando ainda da pobreza de espírito e física, temos "Hungry
Years" com um Neil Sedaka indagando a saudade dos "anos de fome"
e de sentimentos mais verdadeiros, que iam além do "tudo de querer for
poder". "The Queen of 1964", composta da velha parceria
Greenfield/Sedaka significa uma volta às tradições que o fez mundialmente
conhecido. Tão surpresa quanto algumas músicas que despertaram um lado
diferente de composição, estaria reservado à última das músicas desse álbum:
uma releitura de "Breaking Up Is Hard To Do" que na introdução encara
a primeira versão dos tempos dos "doo be doos" em um fade, que a
partir dos 18 segundos mostra-se uma transformação incrível em que torna-se uma
jazz-ballad com as teclas e as cordas trabalhando preenchendo os espaços da
versão anterior. O vocal de Sedaka nessa faixa é simplesmente impecável,
ratificando seu enorme talento não só como pianista, mas como cantor, letrista
e compositor.
A recepção do
álbum ocorreu em dois momentos: a edição britânica, com nome Overnight Success
e pelo selo Polydor e a prensagem norte americana com nome "The Hungry
Years", pelo selo Rocket Records e extraídas as faixas Goodman Goodbye
(possivelmente pelo teor) e a retrô "The Queen Of 1964" substituídas
por "Your Favourite Entertainer" e "Tit for Tat". A edição
americana chegou à décima sexta posição dos charts, o sucesso de Bad Blood o
fez alcançar o primeiro lugar na Billboard Hot 100 por três semanas e receber o
certificado de single ouro, a nova versão de "Breaking Up Is Hard To
Do" alcançou oitavo lugar nas paradas americanas e primeiro lugar no chart
Billboard Adult Contemporary. "The Queen Of 1964" chegou a quinta
posição nas paradas britânicas e o cover do "Lonely Night (Angel
Face)" dos antigos conhecidos Captain and Tenille chegaria a terceira
posição, todos no intervalo entre 1975 e 1976. O sucesso estrondoso de algumas
faixas ajudou a empurrar o álbum e a carreira de Neil Sedaka de novo para o
rumo certo da música popular, em um trabalho que apesar de popular, passa longe
de ser algo simplista ou generalizado, possuindo temas muito fortes como a
pobreza e melodias bastante exploradas pelo talento de Neil. O ano de 1975
marcaria o lançamento do primeiro álbum de sucesso após o hiato dos pop charts,
"Sedaka's Back". Logo, com um sucesso maior ainda nas paradas,
poderíamos verdadeiramente intitular Overnight Success de "Sedaka's
Definitely Back".
Avaliação:
Ficha Técnica:
Gravadora:
Polydor (Reino Unido) e Rocket Records (EUA)
Lançamento:
1975
Gênero:
Pop,
Ballad
Faixas:
A1) Crossroads
Compositores:
Neil Sedaka e Phil Cody
3:18
A2) Lonely
Night (Angel Face)
Compositor: Neil Sedaka
3:09
A3) Stephen
Compositores:
Howard Greenfield e Neil Sedaka
4:09
A4) Bad
Blood
Compositores:
Neil Sedaka e Phil Cody
3:00
A5) Goodman
Goodbye
Compositores:
Neil Sedaka e Phil Cody
3:42
A6) Baby
Blue
Compositores:
Howard Greenfield e Neil Sedaka
3:23
B1) The
Queen Of 1964
Compositores:
Howard Greenfield e Neil Sedaka
3:32
B2) New
York City Blues
Compositores:
Neil Sedaka e Phil Cody
4:08
B3) When
You Were Lovin' Me
Compositores:
Neil Sedaka e Phil Cody
4:21
B4) The
Hungry Years
Compositores:
Howard Greenfield e Neil Sedaka
3:57
B5) Breaking
Up Is Hard To Do (slow version)
Compositores:
Howard Greenfield e Neil Sedaka
3:07
Créditos:
Vocais:
Neil
Sedaka
Vocais de Apoio:
Abigale Haness, Brian
Russell, Brenda Russell, Donny Gerrard, Elton John e Neil Sedaka
Baixo:
Leland
Sklar
Guitarra:
Dean
Parks, Dick “Slyde” Hyde e Steve Cropper
Violões:
Dean
Parks
Bateria:
Nigel
Olsson
Piano, Mellotron:
Neil
Sedaka
Banjo:
Dean
Parks
Trompa:
Chuck
Findley e Jim Horn
Saxofone
Tenor e Barítono:
Jim
Horn
Fliscorne:
Chuck Findley
Trombone:
Dick
“Slyde” Hyde
Percussão:
Jim
Kelter (2,6) e Milt Holland (2,3,5)
Timbales:
Jim Keltner (1) e Milt
Holland (1)
Congas:
Jim
Keltner (1) e Milt Holland (1,8)
Percussão Sul-Americana:
Jim
Keltner (7) e Milt Holland (7)
Xilofone:
Milt
Holland (3)
Tambura e Shakes:
Milt
Holland (4)
Triângulo, Tamborim e Vibrafone:
Milt
Holland (8,9,10)
Arranjador:
Artie
Butler e Jim Horn
Engenheiro:
Robert
Appère
Produtor:
Neil
Sedaka e Robert Appère
Gravado no Clover Recording Studios, Los Angeles, Estados Unidos,
Setembro de 1974.